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O fim da separação entre homem e máquina se aproxima. Um dilema de privacidade, um dilema legal e, sobretudo, um dilema ético

Logo não mais discutiremos dilemas sobre o homem e máquina como entes apartados. Logo, homem e máquina poderão ser, em alguma medida, a mesma coisa.  E desse pressuposto nascem uma série de dúvidas e preocupações.  É o que recente publicação datada de 08 de novembro e assinada por 27 neurocientistas na tradicional e prestigiada revista Nature apontam.

Por mais estranho e futurista que isso possa parecer, damos exemplos reais. Marca-passos que atuam wi-fi podem, sim, ser atacados por hackers. Mais que isso, pesquisas sobre a interface cérebro-máquina (também conhecida por BCI) têm apresentado sucesso e poderão, por exemplo, ser empregadas para o tratamento de doenças neurocerebrais.  Essa mesma tecnologia poderá, logo, ensinar crianças e potencializar a capacidade de aprendizado destas. Essa mesma tecnologia poderá, por exemplo, ser empregada para o desenvolvimento de soldados mais eficientes.

Diante desse cenário, a revista Nature aponta para quatro prioridades éticas na interação homem-máquina:

Privacidade

A primeira e certamente a mais óbvia delas, a preocupação com privacidade decorre da possibilidade de: (i) direcionamento nunca antes visto de publicidades, e; (ii) uso de dados sobre predisposição genética para o estabelecimento de seguros. Pior que isso, invasões de privacidade em nossas mentes poderiam nos condicionar, implantar informações que assumiríamos como verdadeiras.

Agência e identidade

Segundo os cientistas, pessoas com implantes de chips que pretendem atuar para o combate a doenças como Parkinson relataram sofrer alteração de suas próprias identidades.

Agora, imaginemos vários cérebros se comunicando e trocando informações. Nesse cenário, essa sensação poderia ser ampliada em escalas ainda desconhecidas.

Por conta desse cenário, os cientistas já propõem que cartas universais, como a Declaração dos Direitos Humanos de 1948, prevejam expressamente a proteção à identidade pessoal.

 

Reforço

Técnicas chamadas de reforço, que pretendem ampliar e otimizar a capacidade de aprendizado e mesmo aumentar a capacidade física como a de suportar a dor, trarão a reboque dilemas éticos sobre novas classes humanas e consequentemente novas formas de discriminação e poder.

São temas que poderiam criar novas formas de abismos sociais, mais complexos e mais irreversíveis que dilemas como o da fome.

 

Viés

Todas essas ferramentas teriam por detrás de si os chamados algoritmos. E por mais que sejamos levados a crer que eles atuam matematicamente, é fato que suas regras são estabelecidas, ao menos por ora, por fontes humanas, que traduzem em algoritmos suas visões de mundo, suas percepções, seus preconceitos.

Nessa linha de raciocínio, ferramentas tecnológicas incorporadas a nós mesmos poderiam ter nelas próprios vícios humanos que buscamos combater.

Todos os cenários acima são desafiadores e devem ser encarados de forma transparente. Não podemos, contudo, vê-los como desestímulo ao avanço tecnológico. Pelo contrário, a tecnologia, como qualquer outra invenção humana, não é “boa” ou “má”.  Elas simplesmente existem e a destinação dada a elas é uma decisão tipicamente humana. Por repisado que seja o exemplo do avião, esta criação humana usada para revolucionar e destruir durante a Segunda Guerra Mundial, hoje transporta e aproxima bilhões de pessoas ao redor do planeta.

Assim, compete a nós buscarmos respostas éticas e legais, em fóruns globais, sobre o impacto e abrangência deste novo mundo que se aproxima. Dependerá de nós empregarmos essas novas ferramentas para a construção de indivíduos cada vez mais humanos.

 

Leandro Netto

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